Rio de Janeiro, 31 de Julho de 2010 (Sábado) - Ano IV - Faltam 205 dias para o Carnaval

O código do samba-enredo  
 Fonte: Site Papo de Samba 
  Por Julio Cesar Farias
 Data: 12/06/2005 (Domingo)
Enredos escolhidos, chega a hora da prazerosa e sofrível feitura do suporte lítero-musical dos desfiles. Com a sinopse nas mãos, os compositores têm a tarefa mais difícil: resumir com poucas palavras todo o conteúdo de extensos e/ou mirabolantes enredos em versos destinados ao canto de milhares de pessoas durante a apresentação das agremiações.

Mas para compreender o porquê da árdua tarefa dada aos admiráveis senhores de compor a música-fio condutor da nossa grande festa carnavalesca, vamos voltar ao percurso lingüístico e discursivo do samba-enredo.

Muitos pesquisadores consideram como primeiro samba-enredo o apresentado pela Unidos da Tijuca, em 1933, embora outros estudos atribuam o mérito à Portela ou ao Império Serrano. Antes disso, os sambas eram improvisados na hora do desfile e a Escola desfilava com dois sambas para percorrer a pista, um para ir e outro para voltar.

De lá para cá, o samba-enredo, ou de enredo como alguns preferem chamá-lo, mudou bastante. Na década de 30, em que as agremiações desfilavam por horas com cerca de 80 a 100 componentes, o samba continha pequenos versos com uma parte improvisada por repentistas, sempre acompanhados pelas pastoras.
Nas décadas de 40 e 50, época do Estado Novo, já com cerca de 500 componentes, para saírem da marginalidade, as Escolas de Samba alongaram os sambas para 60 a 90 versos, conhecidos como sambas de lençol, com temas nacionalistas e ufanistas geralmente tirados de livros didáticos, com vocabulário rebuscado para equiparar a produção textual popular à cultura oficial, ensinada nos colégios, dita erudita.

Na década de 60, com a inserção da classe média, representados pelas figuras de Fernando Pamplona e o casal Nery, a temática mudou, introduziu-se a exaltação do negro e a exploração do nosso folclore.
Nas décadas de 70 e 80, fim dos sambas tipo lençol, houve o aceleramento do samba-enredo com a espetacularização do Carnaval, marcada pela presença revolucionária de Joãosinho Trinta.
A disputa com as marchinhas nos salões, a criação do regulamento para desfile, a introdução da televisão como veículo voltado para a massa e a construção do Sambódromo como palco fixo, são alguns dos fatores que determinaram a crescente aceleração, o encurtamento e a diluição poética do samba-enredo.

O samba-enredo apresenta uma estrutura lingüística e discursiva particular, em que devem estar bem coordenados as personagens, o tempo, o espaço e o ponto de vista do narrador, contando uma história ou louvando fatos, lugares, objetos ou pessoas.

A característica textual mais evidente do samba-enredo está na aproximação formal com a epopéia literária, pela constante presença da proposição (anunciação do tema cantado), da invocação e da louvação heróica de fatos, objetos e personagens (a mitificação), provenientes do texto épico clássico.

Outra característica marcante é a intertextualidade, com muitas referências a outros textos. Isso ocorre porque o samba-enredo configura-se em um texto encomendado, pautado na sinopse do enredo pré-determinado, resgatado na letra. E o compositor não se prende apenas à sinopse, utiliza também outros textos e o extralingüístico. E essa inserção não é tarefa fácil.

Podemos considerar o samba-enredo como uma vertente da poesia popular narrativa. Os compositores têm hoje uma grande preocupação com construções fáceis de serem memorizadas, enfatizando o verso rimado na constituição do ritmo, da sonoridade das frases cantadas, como acontece com o cordel.

Dentre as diversas características discursivas do gênero, destacamos:

a) As frases curtas com verbos de ação são mais comuns porque contribuem para a fluidez da narração do enredo e tornam o texto mais dinâmico;

b) A inversão dos termos oracionais para a construção melódica dos sambas, facilitando a pronúncia de certas palavras e expressões e para auxiliar na construção da rima e também para enfatizar elementos importantes do enredo;

c) Os adjetivos empregados de forma hiperbólica, exagerada, por se tratar de um texto de exaltação, tendo como preferência o uso intensivo de adjetivos afetivos, isto é, colocados antes dos substantivos;

d) Preferência pelo emprego do substantivo abstrato para realçar a qualidade e o sentimento;

e) O samba-enredo segue padrões de métrica e rima próprios e os sinais de pontuação mais empregados são a vírgula, as reticências e o ponto de exclamação, com a intenção de marcar a cadência e o ritmo do texto que será cantado;

f) A coesão textual, isto é, o relacionamento das palavras entre si, é mais semântica que sintática. O relacionamento dos termos e expressões dá-se mais pelo significado que pela função sintática. Por isso, as conjunções coordenativas são mais usadas, porque são mais apropriadas para narrações orais, auxiliam na seqüencialidade dos fatos e nos coloquialismos;

g) Há um clichê vocabular, isto é, palavras e expressões que se repetem na construção do texto de samba-enredo;

h) O texto de samba-enredo constitui-se de uma narrativa predominantemente didática, embora muitas vezes de narrativa não linear.

De caráter informativo, o texto de samba-enredo deveria primar pela objetividade, entretanto os compositores passam para sua obra uma grande carga emotiva ao encherem seus versos com os mais variados recursos expressivos, revelando que são profissionais extremamente intuitivos, em geral desconhecedores das rígidas regras gramaticais, mas de uma admirável sensibilidade lingüística na adequação do discurso ao contexto do carnaval. (Embora já saibamos de doutores compondo samba-enredo.)

O samba-enredo já mudou bastante, ganhou outra estrutura discursiva com a evolução do carnaval, que se renova continuamente, adequando-se aos novos tempos. E para a festa momesca sobreviver estará sempre passando por transformações, adaptações e inovações em todos os itens que o compõem, inclusive no samba-enredo.
Mesmo que, como vimos, apresente características discursivas específicas e facilmente identificáveis, fazer samba-enredo não é tarefa fácil, não é para qualquer um não! É preciso dom e, sobretudo, sensibilidade.
Por isso, mesmo que muitos critiquem a qualidade dos sambas-enredos da atualidade e insistam que seu código já tenha sido desvendado, revelado e virado uma fórmula ao alcance de todos, devemos continuar reverenciando estes sambistas, que a despeito de tudo, continuam se esmerando para fazer o melhor, contribuindo com seu inegável talento e com sua arte musical na construção do espetáculo apresentado no Sambódromo.


*Julio Cesar Farias é professor de Português, pesquisador, escritor e colaborador do Centro de Memórias do Carnaval da LIESA.


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