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Por ela

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Paulinho da Viola no desfile da Portela em 1957

Por Rogério Rodrigues* |

Paulo da Portela, carregando o pavilhão portelense, nos anos 30

Paulo da Portela, carregando o pavilhão portelense, nos anos 30

Sou uma senhora de 95 anos. Sou filha de três pais, mas também tive o carinho de muitas pessoas. Muitas, famosas; e outras tantas, anônimas.

 

Pequena, ainda, na Barra Preta, fui alimentada com o amor e a dedicação dessas pessoas: e fui crescendo, encorpando e tendo jeito de moça com cabelo nas ventas. Juízo sempre tive, mas sempre gostei de novidades. Dizem, que por esse jeito aguerrido, querendo voar alto, mais parecia uma águia: meu olhar nunca enganou ninguém. Sempre fui direta naquilo em que acredito, mas, também, não consigo disfarçar: sou também doce e acolhedora. Sou filha de Oxum.

 

 

Como todo brasileiro, sou católica de formação, devota de Nossa Senhora da Conceição e de São Sebastião. Mas, bato pro meu pai Oxossi, rei Ketu – okê! – e à minha mãe Oxum, doce mãe que me protege, me acalenta e me acalanta e pra quem me visto de azul.

São Sebastião.

Paulinho da Viola no desfile da Portela em 1957

Paulinho da Viola no desfile da Portela em 1957

 

 

 

Não tive filhos, mas tenho muitas afilhadas, que só me dão orgulho. São belas e estão ganhando admiradores e paixões. Algumas já são campeãs na beleza, na graça, no canto e na dança, outras ainda não. Sinto saudades delas meninas. Abençoei seus passos inseguros do início e pra muitas dei a manta com as cores com que fui consagrada.

 

 

 

 

Carnaval de 1959

Carnaval de 1959

 

Pra outras, leguei um quê de vôo, as asas… e um nome em poético bailar: coisa de namorado. Mas, todas trilham o caminho que ajudei abrir com minha comadre, lá do Morro da Mangueira. Mas, o que importa é que estão aí, levando na raça os valores que nos ensinaram meus pais Paulo, Rufino e Caetano, que aprenderam com meus tios Ismael, Donga, Sinhô, que aprenderam nos terreiros da grande Tia Ciata.

 

 

 

No alto dos meus 95 anos, também olho para frente. Me renovo em cada menino e menina que vêm aqui pra aprender, que vêm cantar comigo, que saem por aí no trem, nas rodas de samba, ou vêm aqui ouvir histórias que tenho pra contar.

Velha guarda da Portela em 1970

Velha guarda da Portela em 1970

 

Olho adiante esperançosa. Mesmo com os atropelos desses tempos corridos que chamam modernos, não perco o rebolado.

 

Quando olho pra trás e vejo Oswaldo Cruz uma tranquila roça, lembro de mim, menina, sob a proteção dos antigos, naqueles tempos difíceis.

 

 

 

Hoje, meu berço é um subúrbio esquecido, quente, prisioneiro do asfalto e das fachadas tristes. Não sinto o cheiro da chuva iminente, não vejo as estrelas, e as noites de luar não emolduram os causos e as festas. Oswaldo Cruz é uma eterna lembrança. Talvez doa um pouco esse coração quando rumo em direção à jaqueira que não existe mais e sinto que muitos não me reconhecem. Os tempos são outros, os rostos também. Mas, ainda bem que existem os olhos da primeira vez.

 

Vilma Nascimento detentora de cinco Estandartes de Ouro, sendo três como porta-bandeira da Portela (1977-1978-1979).

Vilma Nascimento detentora de cinco Estandartes de Ouro, sendo três como porta-bandeira da Portela (1977-1978-1979)

E os enamorados não esquecem nunca mais. Fui baiana, quando rapaz. Já fui rainha, índia, escrava e imperatriz. Fui Bahia, Minas, Olinda, a mais linda Colombina. De soldado, pirata, pierrot, arlequim brinquei o carnaval. A muitos encantei circense e inebriei espuma de mar, o rio-mar. Desfilei nos mais belos cortejos: irreal, rancho, bloco, cordão e sociedade. Casei e contei muita história nacional e de romance. Por eles ainda sou cortejada e amor assim não é fácil de achar.

 

 

 

Tenho a idade da resistência. Parti, rumo a cidade, para cantar a Lapa, o Passeio, a fonte dos amores, a época dos vice-reis, a Tiradentes. Busco as vitrines e os luminosos da Cinelândia, seus bancos, pombos, meninos, senhores e sua difícil e nostálgica alegria carnavalesca.

 

Clara Nunes no desfile da Portela em 1982

Clara Nunes no desfile da Portela em 1982

Enquanto houver um coração que palpite, um gesto de aceno, um olhar amante, desnudarei minha alma de cidade-mulher: os recantos, as vias, os mistérios. Qual turista em país estrangeiro, te deixarei o prazer da conquista, pois, em minha geografia, no fim de cada praça, de cada rua, de cada janela, de cada ladeira habita uma história. Juras desfeitas, dramas domésticos, dores de amor, de parto, de luto e prazer.

 

Resistir, anos a fio, e partilhar com todos aqueles que buscam a fuga da exclusão. Longe do discurso ressentido, sempre busquei a afirmação. E ela se faz com minha arte; eis a minha militância.

 

Abrigo a arte e o sonho, e esses não têm sexo, não têm cor, não têm abismos sociais. “O talento de um povo que mantém acesa a chama da tradição” e a vontade imensa de estar aí: sou assim.

 

Carnaval de 2015

Carnaval de 2015

Atravessei um século quase inteiro. Mas, sei tirar forças de dentro de mim. E não é à toa que nasci alguns meses depois do rádio. Ainda temos voz e ainda há quem nos ouça.

Sei da separação, sei da indiferença, mas jamais caí com os tropeços da vida.

Sou uma negra assanhada e orgulhosa porque sei que deu frutos a semente que plantei.

Sou Portela.

 

 

 

 

NR: Crônica escrita por Rogério Rodrigues para celebrar os 80 anos da Portela e publicado, originalmente, em 2003 no site PortelaWeb . Hoje, dia 11 de abril de 2018, dia em que a escola completa 95 anos, Rogério compartilhou o texto, devidamente atualizado, em suas redes sociais, complementando:

 

“Há 15 anos, escrevi esta pequena crônica para o site PortelaWeb para celebrar os 80 anos desta jovem Senhora, patrimônio da cultura brasileira, celeiro de bambas e um dos pilares civilizatórios desta manifestação popular chamada carnaval carioca. Quem diria que uma brincadeira de três negros pobres, migrantes de diferentes partes deste país, moradores de uma distante roça que era o subúrbio de Oswaldo Cruz iria se transformar em motovo unificador de tantos admiradores e apaixonados mundo afora e, hoje, estaria completando 95 anos de vida, de cultura e resistência. Parabéns, minha amada Portela! Poucas instituições neste Brasil são tão longevas e sólidas como você. Infelizmente, nem a nossa tão desrespeitada democracia.

 

Fotos e vídeo: Reprodução da Internet

 

* Rogério Rodrigues é  professor de Português, pesquisador e um portelense apaixonado.

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