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Casuarina lança ‘+100’, novo álbum de inéditas

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Na Cadência do Samba, por Lucas Nobile* |

cd-casuarinaQuando a gravadora Odeon botou na praça, em 1917, um disco de 78 rotações por minuto com a gravação de “Pelo Telefone”, em composição atribuída a Ernesto dos Santos, o Donga, e a Mauro de Almeida, o selo do álbum classificava a composição como “samba”.

 

À época, o que não se contava, porém, era que aquela “novidade” não era, digamos, tão novidadeira assim. O tal do samba havia nascido na Bahia e, como definiu à perfeição o referencial Nei Lopes, o gênero apenas ganhou “cidadania” no Rio de Janeiro.

 

Ao longo de um século, como numa roda da fortuna, o samba ora viveu momentos de glória e de reconhecimento – ao “penetrar no Municipal”, como magistralmente definiu Cartola -, ora amargou períodos de baixa – agonizando, mas nunca morrendo, como alertou outro ícone mangueirense, Nelson Sargento. Se o samba não desapareceu (e nem desaparece) é porque sempre houve (e sempre haverá) criadores e recriadores que levam adiante sua bandeira, vez ou outra revelando verdadeiras obras-primas.

 

Hoje, se segue de passada firme e ainda permeando o imaginário popular dos brasileiros, o samba deve isso a diversos personagens que o respeitam e, ao mesmo tempo, têm coragem para renová-lo, como o Casuarina. É com trabalhos como + 100, oitavo disco do grupo, que o desejo de longevidade ao centenário gênero genuinamente brasileiro, o samba, mais do que se afirma, se concretiza.

 

Retomando uma parceria com a Biscoito Fino (gravadora pelas quais o Casuarina lançou seus dois primeiros álbuns), nas 12 faixas de + 100, o grupo apresenta um repertório tão diversificado quanto rico, bem costurado e amarrado, dando voz a craques veteranos, como Ivor Lancellotti e Roque Ferreira, e, principalmente, a uma safra fresquíssima de novos e talentosos compositores.

 

Com isso, ao criar um amplo painel com boas variações de estilo dentro do próprio samba, consegue soar emotivo e dançante, complexo e panorâmico, direto e comunicativo, mas sem cair no piegas. Nesse mosaico, há espaço para a dolência de “Tempo Bom na Maré” (Ivor Lancellotti e Roque Ferreira) – ao bom estilo dos sambas de Wilson das Neves -, “Um Samba de Saudade” (Chico Alves e Toninho Geraes) e “Marejando” (Claudemir, Mario, Rafael, Marcio e Samuel) – com aberturas de vozes e, mais, com a cadência que lembra sambas de amor tornados clássicos na voz de Zeca Pagodinho. Há espaço também para o balanço e a batucada de “Trago no Meu Pandeiro” (Rogê, Marcelinho Moreira e Fadico), remetendo à influência inescapável do Fundo de Quintal, com destaque para o banjo e para o violão tenor, tão bem tocado naqueles discos de outrora pelo mestre Zé Menezes. Cabe também a levada amaxixada/forrozeada de “Recordação” (André da Mata e Raul DiCaprio), a ancestralidade de “Falangeiro de Ogum” (Leandro Fregonesi e Raul DiCaprio) e de “Vovó Desata Esse Nó” (Pedrinho da Porteira e Mafram do Maracanã) e as divisões rítmicas interessantes de “Olhos da Lembrança” (Alaan Monteiro e Wanderley Monteiro).

 

Como se o caldeirão do Casuarina já não estivesse extremamente bem temperado, convidados especiais ainda adicionam sua opinião, seu molho, sua personalidade. Além de sambistas de primeira linhagem como Martinho da Vila, em “Tempo Bom”, e Leci Brandão, em “Herança de Partideiro” (de Hamilton Fofão e Ivani Ramos, na linha de expoentes como Aniceto e Candeia, autor do antológico “Testamento de Partideiro”), o disco também conta com nomes que não são essencialmente ligados ao universo do samba, como Criolo, em “Quero Mais Um Samba” (Raul Sampaio e Rogério Bicudo), e Geraldo Azevedo, em “Embira” (Cadé e Raul DiCaprio), com sua singular combinação de lirismo e expressividade.

 

Por si só, o mais recente álbum do Casuarina já se apresenta com novidade e frescor. Pela primeira vez, um disco do grupo chega às lojas (físicas e digitais) sem a presença do cantor, compositor e instrumentista João Cavalcanti. Ao ouvir + 100, é quase que inevitável não estabelecer um paralelo com o grupo Fundo de Quintal. Por quê? Simples. Mesmo com as saídas de mestres como Almir Guineto, Jorge Aragão, Arlindo Cruz e Sombrinha – que, de maneira legítima, apostaram em suas carreiras-solo -, a turma do Cacique de Ramos nunca perdeu sua relevância como conjunto. O mesmo vale para o Casuarina. João segue trilhando seu caminho com o mesmo brilhantismo. Sem prejuízo, o Casuarina, que sempre dividiu muito bem o protagonismo entre seus integrantes, segue renovado e renovador com Gabriel Azevedo (voz, percussão e coro), Daniel Montes (violão de 7 cordas, coro e arranjos), João Fernando (bandolim, violão tenor, coro e arranjos) e Rafael Freire (cavaquinho, banjo e coro), num time em que, com talento e vivacidade, todos envergam a camisa 10.

 

Para quem ainda duvida da força e da perenidade do samba, ouça discos atuais como +100, do Casuarina, e os preparativos para a festa de bicentenário do gênero mais brasileiro que há já estão esperançosamente garantidos.

 

 

Sobre o Casuarina

O Casuarina nasceu em 2001, quando então os meninos de cerca de 20 anos se reuniram no bairro do Humaitá, no Rio de Janeiro, para tocar junto, e ninguém imaginava no que aquilo ia se transformar. A rua Casuarina, onde ficava a casa em que eles ensaiavam, acabou dando nome ao grupo que, hoje, leva o samba made in Brazil a várias partes do planeta.

 

Formado por Daniel Montes (violão de 7 cordas), Gabriel Azevedo (pandeiro e voz), João Fernando (bandolim) e Rafael Freire (cavaquinho), o Casuarina começou a ocupar a então deserta Lapa para mostrar, em bares de pequeno porte, a música que faziam. A dimensão do trabalho foi aumentando e não demorou para os meninos lotarem a Fundição Progresso (RJ), casa com capacidade para cinco mil pessoas. Da Lapa para o mundo foi um pulo: Angola, Bélgica, Canadá, Cuba, Eslovênia, Espanha, EUA, França, Holanda, Inglaterra, Israel, Itália, Malásia, Portugal e Suécia são países em que a banda já se apresentou – além, claro, das incontáveis cidades brasileiras. Em 2014, durante turnê americana, tocaram em Nova Iorque para um Lincoln Center lotado e, em 2016, excursionaram por dois meses pelos Estados Unidos, no globalFest.

 

De lá para cá foram cinco discos de estúdio: “Casuarina” (2005), “Certidão” (2007), “Trilhos/Terra Firme” (2011), “No Passo de Caymmi” (2014) e “7” (2016); e dois CDs/DVDs ao vivo: “MTV Apresenta: Casuarina” (2009) e “Casuarina – 10 Anos de Lapa” (2013). Todos os trabalhos foram indicados ao Prêmio da Música Brasileira, ganhando o troféu de Melhor Grupo de Samba duas vezes. O trabalho de estreia rendeu ainda o Prêmio Rival na categoria Melhor Grupo.

 

Ao longo dessa trajetória, o Casuarina recebeu em seu palco artistas como Alcione, Almir Guineto, Arlindo Cruz, Baby do Brasil, Beth Carvalho, BNegão, Delcio Carvalho, Diogo Nogueira, Dudu Nobre, Elza Soares, Gabriel o Pensador, Hamilton de Holanda, Leila Pinheiro, Lenine, Luis Carlos da Vila, Maria Rita, Monarco, Moraes Moreira, Nei Lopes, Nelson Sargento, Pedro Luis, Roberta Sá, Roberto Silva, Sandra de Sá, Teresa Cristina, Walter Alfaiate, Wilson Moreira, Yamandu Costa e Zélia Duncan, entre outros.

 

Serviço

Casuarina, “+100”
Preço recomendado: R$ 29,90

 

 

* Lucas Nobile é autor de “Dona Ivone Lara: A Primeira-Dama do Samba” (Musickeria/Sonora Editora, 2015) e de “Raphael Rabello: O Violão Em Erupção” (Editora 34/Rumos-Itaú Cultural, 2018)

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